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Ficção científica: uma jornada de revoluções

  • Foto do escritor: cassianimotta
    cassianimotta
  • 18 de mar. de 2025
  • 3 min de leitura

Nessa semana, publiquei no meu canal um vídeo contando um pouco sobre a história da ficção científica e, como nem tudo que eu gostaria de falar coube em um vídeo, decidi complementar com um post aqui no blog.

Livros de ficção científica

A ficção científica apenas é reconhecida com esse nome no século XX, mas suas origens remontam ao século XVII, quando foi lançado O Mundo Resplandecente, escrito por Lady Margareth Cavendish, em 1666. Nessa obra, uma mulher viaja através de portais e chega em uma terra onde ela é coroada imperatriz, nesse lugar existem animais falantes e outros seres incomuns. Em 1818, outra mulher, Mary Shelley, escreveu o clássico Frankenstein. Unindo elementos de terror e ciência, temos em Frankenstein uma discussão profunda sobre o limite das experiências e o que faz um ser humano.


Desde as primeiras obras até aos clássicos mais recentes, a ficção científica reforça seu compromisso com a crítica, seus textos são políticos e sem medo, explorando a obscuridade da ação humana e as possibilidade progresso tecnológico. 


Um clássico que merece mais atenção do público geral é Nós, do russo Igvevni Zamiátin. Obra da década de 1920, este livro é produto de seu tempo. A I Guerra Mundial devastou o mundo entre 1914 e 1918, a chamada gripe espanhola destruiu muitas vidas entre 1918 e 1919, e, ainda, de 1917 a 1928, a Revolução Russa tomou lugar na terra de Zamiátin. O autor escreve, então, sobre uma sociedade aparentemente perfeita, mas que esconde segredos terríveis sob essa fachada. Seu trabalho inspirou Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo) e George Orwell (1984), entre tantos outros escritores que foram indiretamente influenciados. Essa premissa apresentada pelo autor russo é explorada à exaustão na ficção científica que veio depois dele. É a era das distopias. 


Por falar em distopia, mesmo aqueles que não leram ou assistiram à série, já ouviram falar de O Conto da Aia (1985), de Margaret Atwood. E pensar que um romance de quarenta anos atrás ainda é capaz de representar tão ferozmente situações do nosso presente, além de incomodar governos e grupos fundamentalistas que exigem que seja banido de escolas. Isso se encaixa com o que Ursula K. Le Guin, autora de A Mão Esquerda da Escuridão, fala: a ficção científica não prevê o futuro, ela descreve o presente. Presentes problemáticos e que, mesmo antigos, insistem em retornar.


Nos anos 80 duas obras revolucionárias popularizam o cyberpunk: Androides sonham com ovelhas elétricas? e Neuromancer, de Philip K. Dick e Willian Gibson, respectivamente. O livro de Dick inspirou diretamente o filme Blade Runner, uma das maiores obras de ficção científica do cinema, um verdadeiro clássico que teve continuações recentes em Blade Runner 2049, com Ryan Gosling. 

Com o cyberpunk temos o pessimismo instaurado, as cidades estão sujas, a corrupção corre solta e as pessoas só estão tentando sobreviver em um futuro dominado por tecnologia. Nessas histórias, é comum encontrarmos personagens com alterações corporais para corrigir ou melhorar a performance do corpo humano. As inteligências artificiais, os links neurais, a perseguição de organizações criminosas e anti-herois em meio a cidades iluminadas pelos paineis de neon são figuras recorrentes. 

Apesar destas duas obras serem bastante reconhecidas nesse movimento pós-moderno, o termo popularizado por Gardner R. Dozois alcança o ano de 1968, quando o romance Nova foi lançado por Samuel R. Delany, no qual as pessoas interagem com redes de computadores através de implantes. A ideia em Nova é claramente uma inspiração para Willian Gibson em Neuromancer.


Octavia Butler revoluciona a ficção científica trazendo um pouco do afrofuturismo para suas obras

Em 1976, é iniciado o lançamento da série O Padronista, trabalho de Octavia Butler, que diz: “Comecei a escrever sobre poder já que eu tinha tão pouco dele”. Essa frase sempre chamou minha atenção e diz muito sobre o que encontramos em seus textos, associados ao afrofuturismo, mas além disso, Butler insiste nas relações entre comunidades humanas e alienígenas, seus personagens vêm em etnias diversas, o que, para os Estados Unidos segregacionistas do século XX é uma verdadeira transgressão. Aficionada por sci-fi desde a infância, Octavia Butler disse em entrevista que queria mostrar que as pessoas negras existem, estão em todos os lugares, já que sentia-se incomodada pela falta de criatividade nas representações de gênero e raça nas histórias que lia.


Assim como no vídeo que publiquei, reforço aqui a ousadia da ficção científica em romper velhos padrões, além de apenas ser criativo pensando em ciência, essas figuras são recursos para descrever nossa realidade de forma crítica e inteligente, parafraseando Le Guin. Mesmo que a leitura possa parecer mais palatável que nossa realidade, é capaz de trazer o incômodo necessário para evoluirmos como humanos ou, ao menos, nos fazer enxergar além do superficial.


Para saber mais sobre a história da ficção científica, assista:



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