Os Anjos de Evangelion: os inimigos mais estranhos do anime

Existem poucos animes tão discutidos, tão amados e tão incompreendidos quanto Neon Genesis Evangelion. E se tem uma coisa que confunde quem assiste pela primeira vez, e continua rendendo debate, são os Anjos.

Eles são os antagonistas centrais da história. São eles que os robôs gigantes, os Evas, precisam enfrentar. Mas nada neles é convencional, alguns têm forma humanoide, outros são um cubo geométrico flutuante, um deles é uma sombra… E os nomes de todos vêm da tradição angelical judaico-cristã, o que abre uma camada inteira de simbolismo por trás de cada aparição.
Então, se você está começando Evangelion agora ou quer finalmente entender quem é quem, esta leitura é para você.
Um aviso antes de começar: por mais que eu tente evitar os grandes spoilers, falar dos Anjos já entrega parte da estrutura da série.
O que são os Anjos?
No universo de Evangelion, os Anjos são chamados em japonês de shito, uma palavra que significa "apóstolo" ou "mensageiro". A tradução para "Anjo" foi uma escolha oficial da própria produção, já que reforça toda a simbologia religiosa que permeia a obra.
A explicação dentro da história é de que existem duas fontes de vida no planeta: Adam e Lilith. Os Anjos são descendentes de Adam e os seres humanos, chamados de Lilim, são descendentes de Lilith. Ou seja: Anjos e humanos são, essencialmente, dois ramos possíveis da mesma origem, duas variações de uma mesma ideia de vida, disputando o mesmo planeta.
O objetivo dos Anjos é alcançar Lilith e provocar o chamado Terceiro Impacto, um evento que reivindicaria a Terra de volta para a linhagem de Adam, apagando a humanidade no processo. É por isso que eles surgem, um a um, marchando em direção à cidade de Tokyo-3, onde ficam tanto Lilith quanto o quartel-general da organização NERV e é por isso que os Evas precisam detê-los.
Aqui já mora uma das ideias mais interessantes da obra: a série passa horas nos fazendo torcer pela destruição dos Anjos, para só depois nos lembrar que eles e nós somos, no fundo, a mesma coisa, os "monstros" são nossos parentes.
Adam e Lilith são contados, respectivamente, como o Primeiro e o Segundo Anjo, mas eles não atacam Tokyo-3 como os outros, são entidades progenitoras, não combatentes.
Os Anjos que efetivamente aparecem para lutar contra os Evas vão do Terceiro ao Décimo Sétimo. São esses quinze que a maioria das pessoas tem em mente quando fala "os Anjos de Evangelion", todos eles recebem nomes tirados de anjos da tradição religiosa, especialmente de textos como o Livro de Enoque. E, num toque muito característico da série, quase nenhum desses nomes tem relação óbvia com a aparência da criatura.
A lista dos Anjos

Primeiro Anjo - Adam/Adão: O progenitor dos Anjos. Foi descoberto na Antártida, e o contato com ele causou o Segundo Impacto, a catástrofe que devastou o planeta quinze anos antes do início da história. Depois disso, foi reduzido a uma forma embrionária.

Segundo Anjo - Lilith: A progenitora da humanidade. Fica presa no subsolo de Tokyo-3, com uma máscara enigmática cujo desenho é idêntico ao logo da organização SEELE. É o verdadeiro alvo final de todos os Anjos. O nome vem de Lilith, que na tradição judaica é descrita como a primeira esposa de Adão, aquela que o deixou.

Terceiro Anjo - Sachiel: O primeiro a atacar Tokyo-3, logo no episódio de estreia. De forma humanoide e ossuda, emerge do oceano em direção à NERV. É o Anjo que apresenta ao espectador a lógica inteira da série.

Quarto Anjo - Shamshel: Esguio, com dois longos apêndices em forma de chicote capazes de cortar quase qualquer coisa. Na tradição, o nome está ligado a um anjo guardião do Éden.

Quinto Anjo - Ramiel: Um dos mais icônicos de todos, tem a forma de um enorme octaedro azul, puramente geométrico, sem rosto e sem membros, dispara um raio de energia devastador. O nome significa algo como "trovão de Deus", uma referência direta ao seu canhão de partículas. A batalha contra ele é uma das mais lembradas da série inteira.

Sexto Anjo - Gaghiel: Aquático, gigantesco, parecido com um peixe monstruoso. Ataca uma frota naval no meio do oceano.

Sétimo Anjo - Israfel: Um Anjo capaz de se dividir em dois corpos que lutam em perfeita sincronia.

Oitavo Anjo - Sandalphon: Encontrado ainda em estado embrionário dentro de um vulcão, o que gera uma missão de captura completamente diferente das batalhas comuns.

Nono Anjo - Matarael: De aparência que lembra uma aranha, ataca liberando um ácido corrosivo capaz de derreter as defesas da NERV de cima para baixo.

Décimo Anjo - Sahaquiel: Um Anjo colossal que ataca a partir da órbita, tentando se lançar sobre Tokyo-3 como uma bomba vinda do céu.

Décimo Primeiro Anjo - Ireul: Um dos mais originais: não é uma criatura física de combate, e sim uma forma de vida microscópica que evolui rapidamente e infecta os próprios sistemas de computador da NERV. A batalha contra ele é praticamente uma guerra de programação.

Décimo Segundo Anjo - Leliel: Talvez o mais estranho de todos. Aparenta ser uma esfera gigante de listras pretas e brancas flutuando no céu, mas sua verdadeira forma é uma sombra no chão, uma espécie de buraco que engole um dos Evas. O episódio é um dos mais introspectivos da série.

Décimo Terceiro Anjo - Bardiel: Um Anjo que se funde e assume o controle de uma unidade Eva, transformando um aliado em inimigo. É um dos pontos mais dolorosos de toda a narrativa.

Décimo Quarto Anjo - Zeruel: Considerado um dos mais poderosos e aterrorizantes. Rápido, brutal e quase imparável, protagoniza uma das sequências mais intensas da série.

Décimo Quinto Anjo - Arael: Um Anjo de forma alada e etérea que ataca não o corpo, mas a mente, forçando a pessoa a reviver suas memórias mais dolorosas.

Décimo Sexto Anjo - Armisael: De forma que lembra uma hélice ou um anel de luz, ataca tentando se fundir com um Eva.

Décimo Sétimo Anjo - Tabris: O último dos Anjos, e o mais significativo tematicamente. Diferente de todos os outros, ele surge em forma completamente humana e sua história é uma das mais impactante.
Décimo Oitavo Anjo

Há uma leitura, sugerida pela própria estrutura da série, de que a humanidade, os Lilim, seria o Décimo Oitavo Anjo. Faz sentido dentro da lógica da obra: se Anjos e humanos são apenas variações da mesma vida, então nós também somos uma dessas "crianças".
Cada um desses nomes vem de uma tradição angelical real, e o criador da série, Hideaki Anno, usou essa simbologia religiosa de forma ambígua.
Vale saber de uma coisa, porém, para não cair numa armadilha comum: o próprio estúdio já admitiu, ao longo dos anos, que boa parte da iconografia cristã e cabalística de Evangelion foi escolhida muito mais pela estética e pelo impacto de mistério do que por um significado teológico planejado. Em outras palavras, nem todo símbolo esconde uma resposta exata. Parte da genialidade da obra está justamente em nos fazer procurar sentido, do mesmo jeito que os personagens procuram sentido nas próprias vidas.
E talvez seja essa a chave para entender os Anjos. Eles são obstáculos a serem destruídos, enigmas, uma pergunta sobre o que separa o humano do outro e sobre o quanto essa separação é, no fundo, muito menor do que a gente gostaria de acreditar.
E você, qual Anjo de Evangelion mais te marcou?


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