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30 livros para os meus 30 anos: a leitora que eu me tornei

Foto do escritor: cassianimotta
cassianimotta
20 de jul.
6 min de leitura
30 livros

30 livros para os meus 30 anos

Existe uma pergunta complicada para todo leitor apaixonado: "qual é o seu livro favorito?". É difícil escolher uma opção entre tantas leituras tão ricas. Como escolher um só, quando cada fase da vida teve o seu? Quando cada livro que nos marcou fez isso de um jeito que nenhum outro poderia repetir?

Neste ano eu completo 30 anos e, em vez de tentar eleger um favorito, resolvi fazer algo mais honesto: reunir 30 livros que fazem parte da minha formação como pessoa. Não são necessariamente os melhores já escritos, mas cada um destes livros me transformou de alguma forma, me ensinou a ler, a pensar, a sentir e olhar o mundo com mais atenção.

Organizei os 30 em oito categorias, porque foi assim que percebi que eles se agrupam: não por gênero ou ordem cronológica, mas pelo que despertaram em mim. Juntos, eles contam a história de quem eu sou como leitora, da criança que aprendeu a ler até a professora que escreve estas linhas.

Vem comigo por essa estante.

O início


O Grande Rabanete (Tatiana Belinky): A adaptação da história folclórica russa foi um dos primeiros livros que tive contato. A leitura na voz cadenciada do meu pai, todos os dias antes de dormir, é uma das memórias doces que tenho da infância. É simples, repetitivo, quase uma cantiga e é exatamente por isso que funciona com uma criança que está descobrindo que aquelas letras identificam o mundo.

 

Estrelas Tortas (Walcyr Carrasco): O livro da adolescência, daqueles que atravessam a escola inteira de mão em mão. A história de Marcella, que fica paraplégica após um acidente e precisa reaprender a viver, contada pela perspectiva de várias pessoas ao seu redor. Foi um dos primeiros livros que me mostrou que a literatura podia doer e que essa dor podia ser transformadora. Lembro que minha mãe, diretora de escola municipal, às vezes precisava me levar para a escola junto com ela, à noite; eu passava, então, todos os momentos na biblioteca e foi lá que descobri esse livro que me marcou muito.

A Menina que Roubava Livros (Markus Zusak): O livro para o qual eu sempre retorno. Comprei aos 11 anos numa feira do livro, lembro que, na época, custava 35 reais e lembro, também, do sentimento de felicidade quando minha mãe me presenteou. A Liesel, na Alemanha nazista, roubando livros de fogueiras e descobrindo que as palavras podem consolar e resistir, me ensinou por que a gente lê. É o meu favorito, e provavelmente será para sempre.


O fascínio pelo escuro


Frankenstein (Mary Shelley): Escrito por uma mulher de dezoito anos, é o nascimento da ficção científica e uma das reflexões mais profundas já feitas sobre criação, abandono e o que nos torna humanos. A criatura de Shelley é um espelho da humanidade.


Carmilla (Sheridan Le Fanu): Publicado 26 anos antes de Drácula, este conto gótico de vampiras é uma das primeiras histórias sáficas da literatura ocidental. Atmosférico, perturbador e muito à frente do seu tempo.


A Volta do Parafuso (Henry James): A obra-prima da ambiguidade. Uma governanta, duas crianças, e fantasmas que talvez existam ou talvez sejam fruto de uma mente em colapso. James nunca responde e é justamente aí que mora o terror.


Marina (Carlos Ruiz Zafón): O próprio Zafón dizia ser seu livro mais especial. Uma Barcelona sombria, um mistério que se desdobra lentamente e um final surpreendente. Gótico, melancólico, inesquecível.


A Sombra do Vento (Carlos Ruiz Zafón): O Cemitério dos Livros Esquecidos é talvez a imagem mais bonita já criada para descrever o amor à leitura. Um livro sobre livros, sobre memória e sobre a Barcelona do pós-guerra. Para quem ama ler, é um banquete.


As raízes brasileiras


Helena (Machado de Assis): Um Machado de Assis mais romântico que o das grandes obras realistas, mas com toda a qualidade que faz dele o maior nome da nossa literatura. Uma história de segredos de família e identidade que ainda emociona.


Capitães da Areia (Jorge Amado): Os meninos abandonados de Salvador não são apenas  delinquentes, mas crianças vítimas de uma sociedade que lhes negou tudo. Um livro tão poderoso que foi queimado em praça pública em 1937 e que sobreviveu a todos que tentaram apagá-lo.


Um Certo Capitão Rodrigo (Erico Verissimo): O episódio mais célebre de O Tempo e o Vento, com um dos personagens mais carismáticos da literatura gaúcha. Rodrigo Cambará é aventura, coragem e a formação do Rio Grande do Sul em carne e osso, a gente vê os lugares em que a gente vive, os trejeitos e as falas comuns, tão conhecidas conforme a leitura vai fluindo.


O Avesso da Pele (Jeferson Tenório): Vencedor do Jabuti, é um livro muito forte. Pedro reconstrói a vida do pai, um professor negro morto numa abordagem policial, dirigindo cada palavra a ele. Sobre racismo, luto e a falta que um pai faz. Um livro necessário e recentemente vítima de tentativas de censura em escolas, o que só prova sua urgência.


Mundos futuristas


A Mão Esquerda da Escuridão (Ursula K. Le Guin): Le Guin imaginou um mundo onde as pessoas não têm gênero fixo e, a partir daí, desmontou tudo o que achamos saber sobre identidade, política e afeto. 


Fahrenheit 451 (Ray Bradbury): Um mundo onde livros são queimados e a população é anestesiada por telas. Escrito em 1953, fica mais atual a cada ano.


Eu, Robô (Isaac Asimov): As três leis da robótica e uma série de contos que anteciparam praticamente todos os dilemas éticos que hoje discutimos sobre inteligência artificial. Asimov escreveu sobre nós, humanos.


Volta ao Mundo em 80 Dias (Júlio Verne): A aventura em estado puro, a que me lembra que a leitura também é pura alegria de viajar sem sair do lugar. Phileas Fogg e sua corrida contra o relógio são deleite do começo ao fim.


O maravilhoso


Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll): A lógica do absurdo, o nonsense como forma de arte. Alice é interessante para todas as faixas etárias, cada um encontra nela um significado diferente.


Rainha de Copas (Colleen Oakes): Uma releitura que dá origem e humanidade à vilã mais icônica do País das Maravilhas. Toda vilã, um dia, foi uma garota com sonhos.


Sem Coração (Marissa Meyer): Outra origem da Rainha de Copas, desta vez pelas mãos da autora das Crônicas Lunares. Catherine sonhava em abrir uma confeitaria e viver seu primeiro amor, mas o destino a transformou em algo terrível.


Sonho de uma Noite de Verão (William Shakespeare): A mais lúdica das comédias shakespearianas. Fadas, poções, amores trocados e uma floresta encantada mostram um Shakespeare que, provavelmente, se divertia escrevendo.


Mulher-Maravilha: História. A origem mitológica da maior super-heroína das HQs, contada com a profundidade que ela merece. 


Pensar o mundo


A Guerra Não Tem Rosto de Mulher (Svetlana Aleksiévitch): A Nobel de Literatura reuniu depoimentos de mulheres soviéticas que lutaram na Segunda Guerra, vozes que a história oficial silenciou. É um livro devastador e essencial.


Estarão as Prisões Obsoletas? (Angela Davis): Um ensaio curto e afiadíssimo que desmonta a naturalidade com que encaramos o encarceramento. Davis não dá respostas fáceis e nos deixa com muito mais perguntas.


Sejamos Todos Feministas (Chimamanda Ngozi Adichie): O texto que popularizou o feminismo para uma geração inteira. Acessível sem ser raso, pessoal sem deixar de ser político.


Histórias Íntimas (Mary Del Priore): A historiadora brasileira mostra como a sexualidade e a noção de intimidade mudaram ao longo dos séculos. História das mentalidades no que ela tem de mais fascinante e uma aula de como o passado molda o que achamos "natural".


O ofício de historiadora


Dicionário de Conceitos Históricos (Kalina Vanderlei Silva e Maciel Henrique Silva): Companheiro de todo estudante e professor de história, esse livro é uma ferramenta que parece técnica, mas que na verdade ensina a pensar cada conceito com rigor e cuidado.


Apologia da História, ou o Ofício do Historiador (Marc Bloch): Escrito por um dos maiores historiadores do século XX enquanto ele resistia à ocupação nazista na França, antes de ser fuzilado pela Gestapo. É uma defesa comovente do porquê estudar o passado importa.


O coração


Uma Canção de Natal (Charles Dickens): A história de redenção que eu mais gosto. Scrooge e seus fantasmas me lembram que nunca é tarde para mudar. É um livro aconchegante e com uma crítica séria.


Os Sete Maridos de Evelyn Hugo (Taylor Jenkins Reid): Uma estrela de Hollywood, já idosa, conta a verdade sobre sua vida e sobre o amor que ela escondeu por décadas. Envolvente, emocionante e com uma virada interessante.


Cartas para Minha Mãe (Teresa Cardenas): Um livro sobre o vínculo mais antigo que existe, sobre sentimentos e lutas diárias por sobrevivência sendo uma criança que ainda está descobrindo o mundo. Um texto pesado e reflexivo.


Trinta anos, trinta livros


Olhando para esta estante, posso ver que, mais do que uma lista de títulos, é sobre eu mesma. Sobre a criança que aprendeu a ler e encontrou nos livros um lugar de conforto, a adolescente que descobriu que ler era refúgio e resistência. 

E você? Qual foi o livro que te formou? Aquele que, se tivesse que montar a sua própria estante dos anos, entraria sem pensar duas vezes?


 
 
 

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