A história do Massacre de Tulsa representado na série de Watchmen
- cassianimotta

- 14 de jan. de 2025
- 9 min de leitura
TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 06/10/2020 em Toca da Coelho, meu antigo blog

Esperei ansiosa pela estreia da série Watchmen, gostei muito do filme e desde que anunciaram a série, exibida pela HBO, fiquei animada para assistir. No lançamento, super empolgada, corri para comaçar o primeiro episódio e, para minha surpresa, a série inicia com acontecimentos que inicialmente pensei serem fictícios, já que nunca tinha lido uma única menção sobre. Mas só pra garantir, pesquisei... Tulsa 1921. E aí a série deixou de ser só mais uma série, porque ali estava sendo tratado um assunto tabu para a comunidade estadunidense. Vamos tentar entender mais...
A CIDADE
No início do século XX, Tulsa era uma cidade proeminente do estado de Oklahoma, nos Estados Unidos. Como era comum em tempos de segregação racial, a cidade era cortada por trilhos de trem, separando a parte norte (branca) e a parte sul (negra). Ao sul, no bairro de Greenwood a movimentação era intensa, cinemas, bares, jornais, discotecas. Com a descoberta de um reservatório de petróleo, Tulsa se expandia economicamente e os 40 quarteirões do distrito de Greenwood ficaram conhecidos como Black Wall Street. Ali moravam A.C. Jackson, considerado o melhor cirurgião negro do país, e Simon Berry um piloto que tinha seu próprio avião e era proprietário de um serviço de transportes.



Apesar da prosperidade, Tulsa era assombrada pela alta taxa de criminalidade e frequentes linchamentos. A segregação racial separava restaurantes, banheiros, bebedouros, assentos de ônibus e todo bem de uso público, enquanto brancos tinham acesso a diversas opções de restaurante no centro da cidade, negros poderiam fazer suas refeições em alguns poucos. Para se ter ideia, o único banheiro permitido para negros fora de Greenwood ficava em um hotel no centro da cidade. (Guarde essa informação)
Essas leis de segregação eram tão rígidas que uma família de grupo “x” não poderia morar em um bairro em que três quartos dos moradores fossem de etnia “y”, o que acabava reforçando a ausência de bairros mistos.
É interessante notar que a segunda onda da Klu Klux Klan acontece a partir de 1915 e até o final de 1921, Tulsa teria cerca de 3200 moradores ligados à Klan.
CONTEXTO
1919 foi um ano problemático. Os Estados Unidos é um país com forte histórico de perseguição aos negros e o fortalecimento dessa comunidade através do país gerou preocupação entre os supremacistas. Com o final da I Guerra Mundial, retornam soldados mais experientes em batalha, alguns com medalhas e certo reconhecimento, o que a série também representa. Com o retorno de todos esses homens, os gastos de guerra, há uma crise de empregos; a KKK em seu auge estende sua sombra por várias regiões com um discurso nacionalista, prometendo lutar para recuperar a glória do país através da valorização do “verdadeiro” cidadão estadunidense. Muitos desses soldados elevaram a moral de suas comunidades com o sentimento de patriotismo e pertencimento.
Outro ponto: linchamentos eram prática comum; de 1908 a 1921 a cidade registrou 30 linchamentos, 26 desses eram homens negros. O chamado “Verão Vermelho” de 1919, quando diversos massacres raciais aconteceram ao redor do país, é mais uma das inúmeras manchas na história dos Estados Unidos.
CAUSA INICIAL

É difícil precisar o que aconteceu no dia 30 de maio de 1921, pode ter sido um tropeço, um pisão no pé, mas quando o jovem engraxate Dick Rowland (19 anos) precisou ir ao banheiro, ao entrar no elevador, quem estava de fora ouviu um grito feminino, vindo da ascensorista Sarah Page, uma jovem branca (17 anos). O prédio Drexel Building tinha o único banheiro permitido para negros no centro da cidade, Page era acostumada a lidar com o público que visitava o lugar. O historiador Scott Elsword diz que uma das explicações é que Rowland teria pisado no pé da moça ao entrar no elevador. Sarah Page não foi questionada, não há nenhum relato escrito, e nos dias subsequentes ela avisou à polícia que não faria nenhuma queixa.
No dia seguinte, 31 de maio, o Tulsa Tribune, jornal mantido por brancos e conhecido por seu sensacionalismo, lançou a manchete “Negro ataca garota em elevador” e na mesma edição o editorial fala da formação de um grupo para o linchamento de Rowland. Esse editorial foi perdido após ter sido removido dos arquivos do jornal, não há cópias para consulta.
À noite, a polícia, que detivera Dick Rowland, ficou em alerta. O xerife posicionou homens armados, desativou elevadores e tentou conversar com a multidão de homens brancos que se formara próximo ao tribunal do condado. Foi vaiado. Por volta das 8:00 da noite três homens brancos entraram no tribunal exigindo a entrega de Rowland, mas o xerife Willard M. McCullough mandou os homens embora.


Quando souberam sobre o possível linchamento, homens de Greenwood se organizaram com armas para proteger o jovem, um representante da comunidade seguiu para conversar com o xerife, que prometeu que ninguém seria linchado aquela noite. Mas quando a multidão branca começou a se exaltar, os homens de Greenwood foram para o local mostrar sua força, o que foi interpretado como um “levante negro”. E é ali que o conflito começa a tomar forma.
Ambos os grupos estavam armados, mas um homem branco exige que um homem negro largue sua arma; um tiro é disparado, acredita-se que tenha sido por acidente, mas foi o suficiente para a primeira troca de tiros até que os grupos se dispersaram.
Frustrados por não efetivarem o linchamento, brancos armados começaram a atacar aleatoriamente atirando contra pessoas e casas. Os moradores que retornaram para Greenwood ainda foram perseguidos por homens que atiravam e saqueavam lojas por munição. Pessoas inocentes, algumas saindo de um cinema, foram surpreendidas e tentaram fugir, a correria alimentou o pânico.

DESDOBRAMENTOS

Mais tarde, na madrugada do dia 1º de junho de 1921, começaram a incendiar lojas da Rua Archer, extremo sul de Greenwood, quem tentasse oferecer ajuda era recebido a tiros. A noite seguia com diversas incursões de homens armados atirando para todos os lados, destruindo casas e empreendimentos dos moradores de Greenwood. Ao amanhecer, multidões saíram de seus esconderijos e continuaram a destruição em Greenwood. Um carro com cinco homens armados entra no distrito atirando nas casas e lojas, porém, os moradores já estavam em alerta e alvejaram esse primeiro carro, matando todos em seu interior, antes que passassem da primeira quadra.

Nessa invasão foram utilizados aviões e carros de todos os tipos. Pessoas que tentavam fugir eram brutalmente executadas e não havia quem fosse poupado: homens, mulheres, crianças e velhos eram alvos. O cirurgião A.C. Jackson foi executado ao sair de casa com as mãos pra cima, rendendo-se a um grupo de homens brancos.
O rastro de destruição foi tanto que mesmo nos bairros brancos teve impacto; pessoas brancas que tinham empregados negros ou que tentassem proteger alguém deveriam entregar essas pessoas ou teriam suas casas queimadas. Naquela noite, os bombeiros não atenderam aos chamados. O caos era absoluto. Pequenos grupos invadiam e saqueavam casas, obrigando os moradores a saírem para a rua, forçando-os a seguir para centros de detenção.
Algumas igrejas que serviam de abrigo foram queimadas, porque, mesmo sem nenhuma evidência, acreditava-se que forneciam armas e munição para os negros que defendiam seus lares.
CONSEQUÊNCIAS
Reforços da Guarda Nacional chegaram ao distrito por volta das 9h da manhã e a cidade já estava sob lei marcial. Milhares de cidadãos negros tinham sido conduzidos para centros de detenção em caminhões. As estimativas apontam 300 vítimas fatais.

Financeiramente, o prejuízo foi de US$1,8 milhão de dólares na cotação da época, valor que teve o pagamento recusado pelas seguradoras (cerca de US$32 milhões em 2019).
Nenhum dos amotinadores brancos foi responsabilizado e as autoridades definiram que a culpa da violência era dos negros e detiveram cerca de 6 mil moradores.
A maior parte da população negra de Tulsa ficou desabrigada, mas poucos dias depois retornaram para Greenwood para reconstruir o distrito, começando com barracas nos terrenos em que costumavam ter suas casas. A divisão entre negros e brancos não foi afetada, e no planejamento para a reconstrução houve a tentativa de colocar o distrito ainda mais ao norte de sua posição original.
Sobre Dick Rowland: permaneceu preso durante o conflito e depois de liberado, seguiu para Kansas City, onde viveu até o fim de sua vida.
HOJE
Esses acontecimentos ficaram apagados da história, a dor era tão grande que as feridas não cicatrizariam facilmente. Houve um acordo silencioso entre os envolvidos; sobreviventes queriam esquecer para que o sofrimento amenizasse, e, aqueles envolvidos no ataque queriam, ou passar impunes por seus crimes, ou que ninguém lembrasse a vergonha da matança. O tema se tornou um grande tabu.
Em 1996, completando 75 anos dos acontecimentos, um inquérito foi aberto com estudiosos para apurar o número correto de vítimas, as causas entre outros aspectos do massacre. No ano seguinte, uma comissão estadual encontrou evidências de valas comuns, também recomendou o pagamento de reparações aos sobreviventes, bem como escavações para apurar as mortes, porém as autoridades decidiram não seguir adiante com essas recomendações. Em 2001 o relatório dessa investigação encontrou e identificou 39 corpos, mas afirmou que as estimativas anteriores de 300 mortos podem estar corretas, já que muitos corpos não foram encontrados por terem sido enterrados em valas comuns ou mesmo jogados no rio Arkansas. Também foi relatado que o governo da cidade conspirou com a multidão de brancos. Junto com o estudo, foi recomendado um programa de reparações e o estado aprovou algumas bolsas de estudo para descendentes de sobreviventes, bem como um memorial em homenagem às vítimas.

É essencial notar a importância da imprensa, tanto para incitar quanto para apagar da história esse acontecimento. O Tulsa Tribune era um dos dois jornais mantido por brancos e por sua matéria sensacionalista causou tantos danos; mais tarde, agindo como se nada tivesse acontecido. Muitos jornalistas foram pressionados ativamente a nunca publicarem nada sobre o assunto. Em 1971 um jornalista tentou escrever uma reportagem e foi ameaçado de morte nas ruas da cidade, sua reportagem nunca foi publicada.
Em 2003, cinco sobreviventes, liderados por uma equipe jurídica, processaram a cidade de Tulsa e o estado de Oklahoma pelos danos e traumas causados. Com base no relatório de 2001, exigiam a prática das recomendações feitas por especialistas para reparação e recursos para os atuais moradores de Greenwood, porém seu apelo foi recusado com justificativa da limitação de casos de mais de 80 anos. Em 2007 eles recorreram ao Congresso dos EUA pedindo a aprovação de leis para estender o prazo de prescrição.

Em 2021 as atenções se voltarão novamente para Tulsa, pelo centenário do massacre. Cientistas estão usando ferramentas de alta tecnologia para encontrar valas comuns e estudar outros aspectos do “race riot”. O antropólogo forense e especialista em direitos humanos, Clyde Snow, que participou das buscas em 1996 agora está trabalhando nas novas investigações.
Com a retomada da memória, tornou-se conteúdo obrigatório em muitas escolas do estado a partir de 2020.
Importante mencionar que John Hope Franklin, sobrevivente, agora falecido, é respeitado como historiador e tem importantes pesquisas sobre a temática do negro nos Estados Unidos, seu nome está no memorial em Tulsa.
MÍDIAS


O Massacre Racial de Tulsa foi um acontecimento tão sombrio que é interessante que não tenha sido representado em nenhuma mídia, nem mesmo de forma distorcida. Quando os fãs começaram a se perguntar se os acontecimentos eram reais, a atriz Regina King tuitou uma matéria sobre o assunto.
Assim como retratado em Watchmen, muitas famílias se dispersarem e acabaram sem saber o que aconteceu com seus filhos, irmãos... Também houve um pico nas buscas por “massacre de Tulsa” após a estreia de Watchmen.
O documentário Before They Die fala dos sobreviventes e sua busca por justiça.


Espero que tenha sido um post informativo e interessante, aceito sugestões para o próximo post. Qualquer dúvida sobre o tema, pergunte nos comentários, ficarei muito feliz em responder.
REFERÊNCIAS:
O massacre que destruiu a 'Wall Street Negra' há quase cem anos e voltou à tona na série 'Watchmen'"
Distúrbios raciais de Tulsa em 1921 https://pt.wikipedia.org/wiki/Dist%C3%BArbios_raciais_de_Tulsa_em_1921
Tulsa History Society and Museum https://www.tulsahistory.org/exhibit/1921-tulsa-race-massacre/
A century after a race massacre, Tulsa finally digs for suspected mass graves https://www.washingtonpost.com/history/2020/07/13/tulsa-digs-mass-graves-race-massacre-oaklawn-cemetery/
Tulsa Race Massacre https://www.history.com/topics/roaring-twenties/tulsa-race-massacre
Documentário Before They Die https://beforetheydie.org/
Imagens:
Imagem 2: Vista da cidade
Imagem 4: Desfile no distrito Greenwood
Imagem 8: Tulsa na série Watchmen
Imagem 9: Desdobramentos
Imagem 10: Desdobramentos
Imagem 11: Consequências
Imagem 14: À esquerda, criança com bebê, sobreviventes
Imagem 15: À direita, cena da série "Watchmen" (2020) temporada 1, episódio 1
Imagem 17: À direita, cena da série "Watchmen" (2020) temporada 1, episódio 1



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