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Mulher na geladeira e outros problemas: a representação feminina nas histórias em quadrinhos

  • Foto do escritor: cassianimotta
    cassianimotta
  • 1 de abr. de 2025
  • 7 min de leitura

Apesar de alguma evolução, ainda há um longo caminho a ser percorrido em relação à representação feminina nas histórias em quadrinhos.


O início das histórias em quadrinhos remonta ao século XIX, ainda com muitas discussões sobre quem foi o criador dessa arte. Os quadrinhos de super-herois, que são meu foco aqui, têm seu boom nos anos 1940, após a criação do Superman, Batman, Namor, entre outros personagens. É comum ainda hoje que a primeira imagem que venha à mente das pessoas quando se fala em herói seja a dos grandes homens da DC ou Marvel. 


Ma Hunkel Tornado Vermelho e as crianças ciclone
Tornado Vermelho e as Crianças Ciclone: Ma Hunkel é uma personagem curiosa

Em 1939/40, Ma Hunkel surge como Tornado Vermelho, ao lado das crianças Ciclone. Sim, Abigail Mathilda Hunkel, a Tornado Vermelho é avó de Maxine Hunkel, a Ciclone. Ainda assim, seu papel era mais cômico, uma paródia das histórias de super-herói, somente em 1941 temos uma protagonista que se torna reconhecida no mundo inteiro: Mulher Maravilha. 

Sexualização das mulheres nas histórias em quadrinhos
Mulher Maravilha perde seus poderes ao ser algemada por um homem, Lanterna Verde diz que não conseguiu avisá-la do perigo porque estava distraído olhando para o corpo dela.

Criada por um homem com ideias consideradas progressistas para a época, a Mulher Maravilha desafiava certas normas simplesmente por ser uma mulher com força superior, porém, percebe-se o olhar masculino sobre a personagem, especialmente em momentos nos quais ela é capturada e os heróis homens mostram todo o seu poder ao salvá-la de forma tendenciosa, sem faltar as situações de rivalidade feminina. 

Por falar nos heróis, chega a ser constrangedor observar quantos destes tiveram histórias em que colocaram mulheres comuns no colo para dar palmadas. Violência contra a mulher como meio de entretenimento, pior ainda, como algo aceitável para corrigir algum comportamento.


Namora, prima de Namor, é um exemplo interessante da originalidade na escolha de nomes para as mulheres superpoderosas, sem falar na preocupação que ela tem de gerar um filho, já que sua natureza híbrida (meio atlante meio humana) não permite que isso aconteça. Em 1946 não se esperava muito mais de uma mulher. 


Em 1958, temos a primeira aparição da Supergirl, mas não esta que conhecemos. A história é tão absurda que só confirma o conceito da Mulher na Geladeira. Aqui, Jimmy Olsen pede a um totem por uma Supergirl para ajudar o Superman, ela aparece, faz confusões e morre protegendo o Super. Já no ano seguinte, os autores decidem fazer uma Supergirl com uma história própria, considerada a original, Pré-Crise. Mas sua existência não dura muito, já que cerca de 25 anos depois ela é morta pelo Anti-Monitor na Crise das Infinitas Terras e, não importa o quanto a gente possa gostar desses grandes eventos, fica bem claro que, naquela luta, ao voar para auxiliar o Superman, Supergirl parece fadada à morte o que ocorre diante dos olhos de seu primo. Isso gera uma dor tão profunda que acende a fúria no herói mais poderoso do mundo… Já vimos esse plot em algum lugar? É considerada uma das mortes mais emocionantes das HQs, a heroína foi essencial para aquele momento, mas ainda assim é visível o padrão que se constrói. 


A morte da Supergirl e representação feminina nas HQs
A morte da Supergirl, apesar de tocante, demonstra mais uma vez o recurso narrativo da morte de uma mulher querida pelo protagonista para dar motivos para ele continuar lutando.

Entre as décadas de 50 e 60 Batwoman e Batgirl são adições importantes às HQs do Batman. Criada para ser parceira do Batman e afastar os rumores da homossexualidade do herói, a socialite Kathy Kane era basicamente um Bruce Wayne de vestido. Sua sobrinha, Betty Kane, seria a primeira Batgirl. Ambas desapareceram em 1964. 


Representação feminina nas histórias em quadrinhos
Batgirl beija Robin, Batwoman beija Batman: a necessidade de garantir a heterossexualidade do herói com personagens femininas criadas exclusivamente para serem sua contraparte.

Batgirl retorna às páginas em 1988, como Barbara Gordon, e mesmo que o manto tenha passado por outras pessoas por alguns períodos, Barbara é a nossa Batgirl. Já a Batwoman passou por uma grande reformulação, que se mostrou acertada, quando em 2006 retornou aos quadrinhos como Kate Kane, uma militar lésbica (veja que irônico).


Quando chegamos à questão racial, a existência de personagens negras levou muito tempo para ser consolidada. Somente em 1973 vemos Núbia, pela DC Comics e em 1975, pela Marvel Comics, Tempestade. Observe que Núbia é criada como uma personagem secundária de Mulher Maravilha, ora, me parece que quando se cria uma mulher nas HQs é mais fácil simplesmente adicioná-la ao mesmo núcleo feminino, não é mesmo? 

Primeira heroína negra, Tempestade tem sua primeira aparição em maio de 1975 em X-Men
Tempestade tem sua primeira aparição em maio de 1975 em X-Men

Ao iniciar esta escrita, não tinha a intenção de criar uma linha do tempo, mas quando vamos listando personagens femininas o padrão de desenvolvimento é tão claro que chega a irritar. Não importa o quão poderosas elas possam ser, elas serão auxiliares, raramente protagonistas e, quando isso acontece, é como se precisássemos ficar gratas por migalhas de representação feminina, mesmo quando feito de maneira superficial e estereotipada.


Se temos uma Miss Marvel, é porque primeiro tivemos o Capitão Marvel, se temos She-Hulk é porque primeiro tivemos o Hulk. E, não me entendam mal, não é problema gostar dessas personagens ou mesmo ler obras antigas, mas se torna um problema quando fazemos isso sem senso crítico e quando autores aproveitam, no século XXI, as mesmas premissas para escreverem novas histórias de mulheres.


Quando Gail Simone e outras quadrinistas se organizaram para denunciar o arquétipo da Mulher na Geladeira, choveram críticas, vindas especialmente de um público masculino que acreditava ser detentor deste espaço de entretenimento. A verdade é que ainda existe muito medo da parte dos homens de um dia viverem como viveram as mulheres: sem representação, sem direito ao lazer pleno e, sim, esse medo é atual, basta ver a quantidade de discurso de ódio que se prolifera pelas redes sociais cada vez que uma mulher fala de HQs, games ou outra coisa que seja considerada masculina e alcança uma plataforma considerável.

A mulher na geladeira: Lanterna Verde 54 e a representação da mulher nos quadrinhos
Em Lanterna Verde #54 o herói encontra sua namorada morta na geladeira com um bilhete: "Há um presente para você na geladeira"

O arquétipo da mulher na geladeira se refere à história em que o Lanterna Verde Kyle Rayner chega em casa e encontra sua namorada, Alexandra Dewitt, morta e esquartejada dentro da geladeira, sua reação mistura tristeza, raiva e fúria contra o vilão Major Force. Isso acontece em Lanterna Verde #54 (1994), mesmo não sendo a primeira vez que uma mulher foi escrita para ser simplesmente o propulsor da força do herói, talvez tenha sido o momento em que isso foi mais claro e serviu de gatilho para que outras mulheres escritoras decidissem falar por elas e pelo público feminino. Foi criado um site listando as personagens e histórias que mais seguem essa premissa de mulher sofrendo, apanhando, morrendo para dar ênfase no protagonista masculino.


Mesmo que A noite em que Gwen Stacy morreu tenha sido publicada em 1973, a pobre Gwen Stacy repetiu a cena em filmes do Homem-Aranha. Em pleno 2004, após a listagem no site Women in Refrigerators, a esposa do Homem-Elástico, a Sue Disney, é estuprada e morta em Crise de Identidade. Quase repetindo, em menor escala de reconhecimento, aquela história do estupro da Barbara Gordon pelo Coringa em A Piada Mortal, de 1988. 


Isso não acontece só nas HQs, que são uma pequena porção de todas as mídias disponíveis no mundo contemporâneo; livros, filmes, séries e tantos outros shows que nos colocam como criaturas sem objetivos, sem histórias profundas, apenas rostinhos bonitos para embelezar a história, servir de suporte para o grupo, ou, ainda para ser salva pelo mocinho. Quantos filmes já assistimos, desde a infância, que tem um trio com dois meninos e uma menina? Uma mulher lá só para dizer “oi, meninas, queremos vocês pagando ingresso”. 


Representações exageradas, caricaturas do que é ser mulher, onde toda a feminilidade do rosa e lacinhos é atrelada a uma patricinha malvada ou menina ingênua; ou a personagem é maternal e é tão boazinha que chega a ser estúpida, incapaz de pensar por si; se a mulher é forte e independente, talvez seja porque ela não encontrou o amor ainda e um homem simpático e bonzinho vai aparecer. Eu entendo que essas representações refletem o que vemos diariamente, são impressões que mesmo nós, mulheres, precisamos desconstruir. Mas ainda assim, essas mídias precisam se responsabilizar pela imagem que continuam explorando, já que tudo é um círculo e, quando há coragem de romper com certos clichês, a coisa muda.


Não me aprofundei na questão das capas de revistas e imagens promocionais com desenhos absurdos, mulheres em posições ridículas e de submissão, enquanto os heróis praticamente lideram um culto à força e à macheza porque me parece ser a parte mais óbvia do problema.

Representação feminina das hqs sensualidade ou sexualização
O problema não está na sensualidade, mas nas formas esdrúxulas que tentam imprimir essa característica nas mulheres: sexualização

Em uma conversa recente, um amigo comentou sobre a pouca presença de mulheres vilãs nas HQs e eu me peguei pensando sobre isso. Observe que existe uma grande dificuldade em escrever mulheres malvadas, mulheres más, cruéis mesmo, sem romantizações. A ideia de mulheres maternais e boazinhas é tão enraizada que em 1946 vimos Namora tão desesperada para ser mãe a ponto de fazer um clone engravidar e dar um filho ao marido, mas hoje se temos heroínas grávidas porque desejam ser mães e continuar lutando, há quem se espante, como aconteceu com a Mulher-Aranha em 2015. Por outro lado, as vilãs são logo atreladas à sensualidade ou a “feiura”, como se a aparência fosse a bússola para definir a personalidade da mulher. Mulher Gato, Mística, Hera Venenosa, Arlequina, Circe, Magia, Nevasca, Thalia Al-Ghul… Esta última chegou a estuprar o Batman (para ser mãe), mas o problema é tão grande que muitos leitores consideram como um “romance”, afinal, mulheres não podem ser más, certo? Observe também como essas situações são diferentes quando acontecem com homens e mulheres, para elas, isso define a vida, morrem ou adquirem uma deficiência, a ponto de precisarem aposentar sua capa.

Representação feminina nas hqs

Acredito que a dificuldade em lidar com personagens vilanescas tenha muito a ver com essa dificuldade masculina em escrever mulheres, de forma similar ao que acontece com as heroínas. O movimento de mudança acontece quando mais mulheres começam a trabalhar como quadrinistas, especialmente nas grandes editoras de super-herois, DC e Marvel, imprimindo vivências femininas nessas personagens de uma forma mais natural, atitudes comuns que podem estar nos quadros, mas que geram identificação e profundidade nas histórias, enriquecendo as HQs. 

Falamos de mulheres em geral, mas quando mencionamos o problema da falta de representação de negras, LGBTQIAP+, com deficiência ou com religiosidade minoritária nas Américas, é como se estivéssemos exigindo demais. Como ousamos existir? 

Como mencionei antes, o aumento da presença feminina nas editoras, assim como em outras áreas do nicho nerd e geek traz esperança de evolução. Não é que não estávamos por aqui antes, mas nem sempre tivemos os meios para nos expor. Sempre gostamos de quadrinhos, a primeira pessoa a fazer cosplay em um evento nerd foi uma mulher em 1939! 

Sempre gostamos de super-herois, mangás e jogos, mas haviam tarefas que nos prendiam desde muito jovens, casamento, casa, filhos, marido. O lazer após o dia cansativo de trabalho era destinado aos homens, mulheres lutam até hoje por isso, mesmo com o medo dos homens de perderem suas serviçais.


Artista Shrea Arora recriou algumas capas de heroínas, substituindo-as por heróis
Artista Shreya Arora recriou algumas capas de heroínas, substituindo-as por heróis

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