Neuromancer: como um homem do passado inventou o futuro

No começo dos anos 80, um escritor pouco conhecido, morando no Canadá, se senta diante de uma máquina de escrever manual fabricada em 1927. E ali, naquele trambolho mecânico sem tela e sem memória, ele digita, letra por letra, o livro que iria imaginar a internet, a realidade virtual e boa parte do mundo digital em que a gente vive hoje.
O escritor é William Gibson e o livro é Neuromancer, publicado em 1984, uma das histórias mais fascinantes da ficção científica.
Se você nunca leu, esse texto é um convite e, se você já leu, espero te dar motivos novos para amar esse livro ainda mais.
O autor

Antes de Neuromancer, William Gibson era quase ninguém no mundo das letras. Tinha publicado alguns contos em revistas de ficção científica e vivia longe de qualquer centro de tecnologia. Não era engenheiro, não era programador, não tinha computador em casa e quando uma editora encomendou o primeiro romance, o que existia era um escritor talentoso e uma folha em branco.
O homem que inventou o vocabulário da era digital escreveu tudo em uma máquina de escrever mecânica. Gibson contou depois que entendia tão pouco de computadores que parecia que neles havia algo quase mágico, uma caixa-preta cheia de possibilidades que ele não sabia explicar.
Gibson estava livre para sonhar sem limitações. Ele não imaginou a internet como um engenheiro imaginaria, com cabos e protocolos. Imaginou como um poeta, preocupado com a sensação de estar lá dentro.
Ciberespaço
A contribuição mais famosa de Neuromancer é uma palavra que hoje parece que sempre existiu: ciberespaço. Foi Gibson quem a cunhou, primeiro num conto chamado Burning Chrome, de 1982, e depois a desenvolveu neste romance.
Ele descreveu o ciberespaço como uma alucinação consensual, experimentada diariamente por bilhões de pessoas. Um espaço que não é físico, feito de pura informação, no qual a mente humana entra e navega como se estivesse percorrendo uma cidade de luz. Observe que isso foi escrito em 1984, quando a internet como a gente conhece simplesmente não existia para o público. No livro, Gibson também chama esse território digital de matrix, quinze anos antes do filme das irmãs Wachowski. Quando a franquia estrelada pelo Keanu Reeves batizou aquele mundo simulado, estava pegando emprestado um termo que já morava nas páginas deste romance.
Toda vez que um filme mostra alguém mergulhando dentro de um sistema, de Matrix a Ghost in the Shell, de Tron a Cyberpunk 2077, está desenhando aquilo que ele descreveu primeiro, sozinho, numa máquina de escrever.
O livro

O protagonista é Case, um hacker talentoso e arruinado. Como punição por ter roubadO, ele teve o sistema nervoso danificado e perdeu o acesso ao ciberespaço, que para ele era quase uma razão de viver. Vivendo nas ruas do Japão, Case recebe uma proposta inesperada: alguém pode curá-lo, em troca de um último trabalho, quase impossível. Conhecemos, então, Molly, uma mercenária de corpo modificado, com lâminas retráteis sob as unhas e lentes espelhadas implantadas no lugar dos olhos.
É uma trama de assalto, mas o pano de fundo é um mundo de megacorporações, inteligências artificiais com vontade própria e gente reconstruindo o próprio corpo com tecnologia. Neuromancer foi o primeiro volume da chamada Trilogia Sprawl e praticamente fundou a estética que a gente chama de cyberpunk. Alta tecnologia convivendo com baixa qualidade de vida, neon e miséria no mesmo quadro.
Neuromancer é denso, muita gente trava nas primeiras páginas, sem entender direito o que está acontecendo. A recompensa vem para quem confia no autor e continua, porque em algum ponto o mundo se organiza na sua cabeça e você percebe que está lendo algo que mudou a ficção para sempre.

Blade Runner
No meio da escrita de Neuromancer, Gibson foi ao cinema assistir a Blade Runner e saiu de lá em pânico porque o filme de Ridley Scott mostrava a atmosfera que ele vinha tentando construir no papel. A cidade encharcada de chuva, os letreiros de neon, a decadência tecnológica, aquele futuro ao mesmo tempo sujo e deslumbrante. Gibson imaginou que, quando o livro finalmente saísse, todos diriam que ele tinha copiado o filme.
Ele chegou a reescrever trechos, com medo dessa comparação. No fim, aconteceu o contrário do que ele temia. Blade Runner e Neuromancer se tornaram os dois pilares gêmeos do cyberpunk, um no cinema e outro na literatura, nascidos quase ao mesmo tempo, sem que um copiasse o outro.
Quando a gente diz que Gibson previu o futuro, a primeira coisa que vem à cabeça é a tecnologia. O que Neuromancer acertou com uma precisão quase assustadora foi a sociedade, um mundo em que grandes corporações são mais poderosas que governos e a informação vale mais que o corpo humano.
Neuromancer continua atual, Gibson entendeu, antes de quase todo mundo, que o futuro não seria definido pelas máquinas em si, mas pelo que os seres humanos escolheriam fazer com elas.
Anos mais tarde, ele diria que o futuro já chegou, só não está distribuído por igual. A melhor ficção científica é sobre gente.
Um homem sentado diante de uma máquina de escrever com mais de cinquenta anos de uso, enxergou o nosso presente com mais clareza do que muita gente que vive dentro dele hoje.
E você, já se aventurou por Neuromancer, ou ele ainda está te esperando na estante? Me conta aqui embaixo qual obra de ficção científica, para você, mais acertou sobre o mundo em que a gente vive.



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