Os subgêneros punk da ficção científica | parte II
- cassianimotta

- 6 de jun. de 2025
- 4 min de leitura

Quando falamos dos subgêneros punk da ficção científica, logo lembramos de cyber e steampunk. O sufixo “punk” carrega um tom rebelde ou crítico sobre o futuro, geralmente mostrando personagens que desafiam sistemas opressivos e corporações poderosas. Neste post, vamos explorar quatro outras vertentes da ficção científica: atompunk, biopunk, nanopunk e mythpunk.
Se você ainda não leu o post anterior sobre cyber, steam, diesel e solarpunk, leia aqui.
Atompunk: energia nuclear, cores alegres e cenário tenso
Atompunk é um subgênero de ficção científica retrofuturista ambientado em um futuro imaginado pelos padrões das décadas de 1950 e 1960. Nestas histórias, a energia nuclear é essencial, assim como uma atmosfera tensa. Em geral, o contexto histórico do atompunk remete aos anos anteriores à era digital. era atômica, dos jatos e espacial, marcada pela paranoia anticomunista, espionagem da Guerra Fria e pelo surgimento do complexo militar-industrial.

A ambientação é construída como o período pós-guerra e Guerra Fria, com a corrida espacial, como se o futuro tivesse sido projetado pela cultura e tecnologia desse tempo. A estética típica é chamada de Raygun Gothic ou Populuxe, cheia de casas futuristas curvilíneas, decoração pastel e carros voadores imaginados na década de 50.
Como exemplo, podemos pensar no filme O Gigante de Ferro, que foi transmitido muitas vezes na Sessão da Tarde. O jogo Fallout, ambientado num mundo pós-apocalíptico após uma guerra nuclear, tem visual fortemente inspirado nos anos 1950 e no medo da era atômica.
Biopunk: o futuro assustador da engenharia genética
O biopunk é um subgênero que deriva do cyberpunk, mas em vez de focar em computadores, enfatiza a biotecnologia e a manipulação genética. Pode ser descrito como algo mais underground dentro da revolução biotecnológica que teve início nas últimas décadas do século XX.
Nestas histórias, é comum que encontremos grupos marginalizados ou rebeldes que usam a engenharia genética e outras biotecnologias para resistir a governos totalitários ou a grandes corporações que abusam desses avanços para controle social e lucro.

Apesar de ser muito semelhante ao cyberpunk, o foco aqui é na modificação biológica, personagens alteram seu DNA, curam doenças graves ou criam híbridos e parasitas para sobreviver. O tom é frequentemente distópico e sombrio, discutindo dilemas éticos do uso da ciência na humanidade. Muitas vezes essas alterações podem ser iniciativa dos governos sobre as pessoas, com experiências e pesquisas obscuras.
O último ruivo, livro brasileiro de autoria de Clayton de La Vie, o autor inicia um universo biopunk muito interessante e cheio de reviravoltas. Quanto aos jogos, temos exemplos bastante famosos como Resident Evil, já que nesta história os zumbis surgem a partir de laboratórios que criaram vírus e monstros biológicos. BioShock, outro jogo, tem uma mistura de estéticas, seu visual lembra o steampunk e sua história envolve uma cidade submersa, com cientistas e alterações biológicas, onde vitaminas genéticas conferem poderes estranhos.
Nanopunk: cyberpunk, mas (quase) invisível
Nanopunk é um subgênero que, como sugere o nome, foca nas possibilidades e riscos da nanotecnologia. Nele, estruturas microscópicas (nanites) e bionanotecnologias tornaram-se forças dominantes na sociedade.

As histórias nanopunk podem alternar entre visões distópicas de colapso nanobiológico e futuros mais otimistas em que a nanotecnologia resolve problemas humanos, aproximando-se do solarpunk. A ênfase está no impacto social, psicológico e artístico das máquinas invisíveis – robôs minúsculos no corpo humano, médicos reprogramando células e cenários em que a fronteira entre vivo e máquina se dissolve.
O subgênero ainda é pouco comum em comparação aos “punks” mais famosos, mas ganhou espaço no final dos anos 1990 e 2000, quando autoras como Kathleen Ann Goonan e Linda Nagata publicaram romances inteiramente baseados em nanotecnologias. O livro Queen City Jazz e The Nanotech Succession (Trilogia da Sucessão da Nanotecnologia), das autoras citadas, são consideradas as primeiras obras do gênero.
Outro exemplo bastante popular pode ser o Homem-Formiga, um heroi da Marvel que usa um traje baseado na nanotecnologia para encolher e interagir com o mundo em escala minúscula.
Mythpunk: quando mitos e lendas vêm para o mundo real e atual
Mythpunk (myth = mito) é um subgênero de ficção mítica ou folclórica reinventada com técnicas modernas e pós-modernas. A escritora Catherynne M. Valente cunhou esse termo para descrever histórias que partem de mitos e lendas tradicionais, mas usam linguagem experimental, narrativa não linear e outras “farra punk” literária. Em vez de um futuro tecnológico, o foco do mythpunk são figuras lendárias, deuses ou contos de fada reimaginados numa perspectiva crítica e contemporânea. Por exemplo, temas clássicos são revisitados por meio de um toque irônico, feminista ou surreal, às vezes misturando épocas, um herói mitológico no mundo moderno, por exemplo.

Representando este subgênero, temos o livro A menina que navegou ao reino encantado no barco que ela mesma fez, de Catherynne M. Valente, que mistura elementos de conto de fadas infantil com um estilo pós-moderno e reflexivo. A série Once Upon a Time também mescla diversos contos de fadas clássicos e mitologia folclórica em um contexto moderno, com reinterpretações dos personagens. Existem muitos outros livros, filmes e quadrinhos que, mesmo sem carregar essa classificação, podem ser considerados mythpunk pois exemplificam a reinvenção de mitologias na narrativa atual.
Cada um desses subgêneros punk combina especulação futurista (ou mítica) com uma visão crítica de mundo. Enquanto o atompunk e o nanopunk lidam com tecnologias específicas (energia nuclear e nanotecnologia, respectivamente), o biopunk reflete sobre bioengenharia e o controle corporativo da vida, e o mythpunk reinventa lendas para questionar crenças sociais. Juntos, esses subgêneros expandem as fronteiras da ficção científica e da fantasia, oferecendo cenários ricos que desafiam as convenções e fazem o leitor pensar sobre o presente em que vivemos.
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