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A menina que roubava livros: ler é resistência

  • Foto do escritor: cassianimotta
    cassianimotta
  • 22 de jul.
  • 5 min de leitura

Capa de livro de Markus Zusak, A menina que roubava livros, com silhueta de uma mulher sob guarda-chuva vermelho.

Eu tinha onze anos e acompanhava revistas sobre ciência e curiosidades com a seriedade de quem estuda para uma prova importante. Superinteressante, Galileu, e até outras mais chamativas, tipo Mundo Estranho.

Era a minha forma de existir no mundo: ficar de olho nas últimas pesquisas, marcar o que queria ler ou assistir, montar listas mentais de livros que um dia seriam meus. A maior parte dos livros ficavam nessas listas por muito tempo, livro bom era caro e continua sendo hoje.

Quando A Menina que Roubava Livros apareceu nas revistas, alguma coisa me prendeu de um jeito diferente. O livro havia sido lançado originalmente em 2005, e a edição brasileira pela Intrínseca chegou em fevereiro de 2007 com aquela capa que parecia guardar segredo antes mesmo de você abrir. Eu li cada linha de cada resenha que encontrei. E decidi que precisava desse livro.

Pedi para a minha mãe na Feira do Livro da minha cidade. Lembro dos 35 reais. Lembro de saber que era caro e lembro da minha mãe comprando mesmo assim.

Esse é o livro favorito que carrego comigo até hoje. E não é coincidência que ele seja sobre uma menina que entendeu, antes de qualquer coisa, o poder devastador e necessário que as palavras têm.


Quando a morte conta uma história

A Menina que Roubava Livros tem uma narradora incomum: a Morte. Não a Morte sombria e malévola do imaginário popular, mas uma Morte que se impressiona com os seres humanos, que os observa com curiosidade e uma espécie de afeto melancólico, que escolhe te contar essa história exatamente porque não consegue parar de pensar nela.

Essa escolha narrativa, que poderia parecer apenas um artifício, é na verdade o coração do livro. A Morte acompanha a trajetória de Liesel Meminger de 1939 a 1943,  anos em que a Alemanha nazista existia como uma realidade que precisava ser vivida, não só como capítulo de livro de história.

Liesel chega à Rua Himmel, em Molching, depois de perder o irmão no caminho. É entregue a Hans e Rosa Hubermann, pais adotivos que recebem crianças em troca de dinheiro, sem saber ler, sem entender direito o que está acontecendo com o mundo, carregando no fundo da mala um livro que não pode ler ainda: O Manual do Coveiro, apanhado na neve perto de onde o irmão foi enterrado.

Esse é foi o seu primeiro roubo e é o ponto de partida para tudo que vem depois.

Liesel começa a perceber o poder e a importância que as palavras têm, principalmente no período em que ela viveu, onde palavras organizadas formavam discursos que convenciam a população de um país inteiro sobre quem era melhor ou pior, e de acordo com isso, quem merecia viver uma vida boa, ou às vezes quem nem ao menos merecia viver.

Essa é a tensão que sustenta o livro inteiro: as palavras que destroem e as palavras que salvam são as mesmas palavras. O que muda é quem as usa e para quê.

Desenho em preto e branco com escadas, baldes e criança lendo; texto: VALIOSO, MOVIMENTO DA ÁGUA, LUZ DO DIA.

Roubar livros numa Alemanha que queima livros não é apenas desobediência. É um ato de fé na possibilidade de que existir de outro jeito ainda é possível. Para Liesel essa compreensão não vem de forma intelectual, teórica, mas no corpo, no instinto, na forma como se aferra a cada página como quem segura algo que o mundo quer apagar.

Markus Zusak, filho de pai austríaco e mãe alemã, cresceu ouvindo histórias sobre a Alemanha nazista, sobre o bombardeio de Munique, sobre judeus marchando pela pequena cidade alemã de sua mãe. Em entrevista ao The Sydney Morning Herald, ele disse: "Ainda havia crianças rebeldes e pessoas que não seguiam as regras e pessoas que esconderam judeus em suas casas.”

A Menina que Roubava Livros é esse outro lado. Elenão romantiza a guerra, mas recusa a ideia de que todos os que viveram naquele tempo eram apenas monstros ou apenas vítimas, as pessoas são mais complicadas do que isso. Liesel, Hans, Rosa, Rudy, Max… Cada um deles é complicado da forma mais humana possível.


Uma família escolhida

Uma das coisas que mais chama minha atenção neste livro é a família Hubermann.

Hans é um homem gentil que toca acordeão, que ensina Liesel a ler no meio da noite usando as paredes do porão como quadro-negro, que esconde um judeu em casa porque era amigo do pai dele na Primeira Guerra e não consegue fazer outra coisa que não seja a coisa certa. O mesmo acordeão que pertenceu ao judeu Erik Vandenburg, que salvou sua vida na Primeira Guerra Mundial. Existe uma continuidade de afeto e de dívida moral que atravessa gerações nesse livro, e Zusak costura com uma precisão que parece simples até você perceber o quanto não é.

Rosa é rude, reclamona, mas absolutamente comprometida com a sobrevivência de todos que estão sob seu teto. Ela não é como a figura materna calorosa dos filmes, ela é muito mais real.

Essa família não foi escolhida por Liesel, e Liesel não foi escolhida por eles, mas é exatamente a família que cada um precisava. 


A família Hubermann começa a abrigar e proteger um judeu em seu porão enquanto os ataques chegavam cada vez mais perto da cidade.Max Vandenburg é filho do homem que salvou Hans na Primeira Guerra. É jovem, é escritor, e cria livros artesanais, histórias escritas sobre as páginas pintadas de um livro do próprio Hitler, como um ato de subversão que Zusak nunca precisa nomear para você sentir o peso.

A relação entre Liesel e Max é construída em torno das palavras, das histórias que ele escreve, dos livros que ela lê, da língua como única coisa que ainda pode ser de alguém que não tem mais nada. É uma das relações mais bonitas e mais honestas que podemos ler numa ficção.


Para mim

Existe uma pergunta que eu me faço às vezes: por que esse livro, de todos os livros que li, é o meu favorito?

Não é o mais tecnicamente perfeito que conheço, não é o mais difícil, mas é o livro que me ensinou, sutilmente, que ler é um ato político. Que as palavras importam além da página, que uma história pode ser narrada pela Morte e ainda assim ser completamente sobre como viver.

Lembro dos 35 reais que a minha mãe pagou naquela feira, lembro de carregar o livro pra casa com aquela sensação de que tinha conseguido alguma coisa importante. E lembro de ler as primeiras páginas naquela noite e entender que estava segurando algo diferente de tudo que tinha lido antes. Eu li esse livro duas vezes nas 48 horas seguintes.

A Menina que Roubava Livros permaneceu por mais de dez anos na lista de bestsellers do New York Times e eu entendo o motivo: é o tipo de livro que encontra cada leitor no lugar exato em que ele precisa ser encontrado. Ele me encontrou numa feira do livro de cidade pequena, numa tarde em que eu não sabia ainda o quanto aqueles 35 reais iam valer.

Valeram muito.


FICHA DO LIVRO


Capa de livro em fundo nevado, com árvore sem folhas e mulher de guarda-chuva vermelho; texto A menina que roubava livros.

Título: A Menina que Roubava Livros

Autor: Markus Zusak

Editora no Brasil: Intrínseca

Ano de publicação (Brasil): 2007

Páginas: 480

Gênero: Ficção histórica, literatura jovem adulto


 
 
 

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