Mary Shelley: a mulher que inventou a ficção científica

Pense em tudo que a ficção científica nos trouxe: robôs que se voltam contra os criadores, inteligências artificiais que começam a pensar sozinhas, cientistas que brincam de deus e pagam o preço... Todo esse gênero nasceu de uma única obra escrita por uma jovem de dezoito anos: Mary Shelley. A história por trás de Frankenstein é tão interessante quanto o próprio monstro.

Mary nasceu em Londres, em 1797, filha de William Godwin, um filósofo influente, e de Mary Wollstonecraft, uma das primeiras grandes feministas da história, autora de um livro que defendia a igualdade das mulheres.
Mary nunca chegou a conhecer a mãe, que faleceu de infecção poucos dias depois do parto. Boatos dizem que a menina aprendeu a ler soletrando o próprio nome na lápide, nos passeios que fazia até o túmulo. Assim, a morte, para ela, sempre foi algo próximo.
Ainda adolescente, se apaixonou pelo poeta Percy Shelley, um jovem casado, e fugiu com ele, gerando um escândalo e iniciando mais um ciclo de perdas e dívidas. Antes mesmo de completar vinte anos, Mary já tinha experimentado o luto de perto mais de uma vez.
O nascimento de um gênero
Em 1816, Mary, então com dezoito anos, viajou com Percy para a Suíça, esperando um verão tranquilo na companhia de outro nome da literatura da época, o poeta Lord Byron.
Devido à erupção de um vulcão, a atmosfera ficou cinza e o clima se alterou, assim, com dias gelados e chuvosos, o grupo se viu preso dentro de casa, na Villa Diodati, sem muito o que fazer. Foi Byron quem propôs a brincadeira que mudaria a literatura, desafiando os presentes a escrever a história de terror mais assustadora que conseguissem.

Nos primeiros dias, Mary não conseguia pensar em nada, havia a pressão de competir com poetas reconhecidos na época, mas após uma conversa sobre os limites da ciência e a possibilidade de reanimar a matéria morta, ela teve uma visão do que se tornaria uma obra revolucionária.
Ela descreveu, anos depois, que visualizou um estudante pálido ajoelhado ao lado da coisa que tinha montado, viu essa criatura dar sinais de vida, com movimentos incômodos, meio vivos, para o horror do criador diante do que tinha feito. Quando acordou, percebeu que aquilo que tinha assustado a ela assustaria qualquer leitor.
É interessante notar que John Polidori, o médico que acompanhava Byron, escreveu ali a semente de O Vampiro, o conto que praticamente inventou o vampiro romântico e aristocrático da literatura, o avô distante do Drácula. Ou seja, um único verão chuvoso, dentro de uma casa, deu à luz de uma vez tanto a ficção científica moderna quanto o vampiro moderno.
É ficção científica!
Até Frankenstein, as histórias de horror bebiam do sobrenatural, o medo vinha de fantasmas, de maldições, de demônios, de forças que estavam além da compreensão humana. Mas no livro de Mary Shelley, não existe magia nenhuma, o horror nasce da ciência.
Victor Frankenstein é um cientista que usa o conhecimento da época, especialmente as descobertas sobre eletricidade e sobre o funcionamento dos corpos, para fazer uma coisa que sempre pertenceu aos deuses: criar vida. O terror da história vem de uma pergunta perfeitamente humana e perfeitamente atual. Só porque a gente consegue fazer uma coisa, a gente deveria fazer?
Essa é a estrutura base da ficção científica, usar a ciência como motor da narrativa para investigar quem a gente é e até onde a gente pode ir. Toda vez que uma história coloca um cientista diante das consequências de uma criação que fugiu do controle, de um robô a um clone, de uma inteligência artificial a uma experiência genética, ela está repetindo o gesto que uma jovem inventou em 1816.
O Prometeu Moderno

A criatura de Victor Frankenstein não nasce má, mas curiosa, sensível, cheia de vontade de pertencer e de ser amada. O que a transforma em algo terrível é a rejeição, já que seu criador foge horrorizado e o mundo a expulsa por ser diferente. É possível enxergar nessa história a menina que perdeu a mãe e carregou consigo a marca da ausência. Mary Shelley escreveu sobre um monstro de laboratório, mas também escreveu sobre a perda e a solidão que ela mesma carregava.
Frankenstein ou O Prometeu Moderno foi publicado em 1818, quando Mary tinha vinte anos, mas a capa não levava seu nome, esperava-se que o livro tivesse sido escrito por um homem, provavelmente Percy. A ideia de que uma jovem de vinte anos tivesse criado algo tão original e tão perturbador parecia, para aquele mundo, simplesmente impossível. Levou tempo até o nome dela ocupar o lugar que sempre foi seu, na capa de um dos livros mais influentes já escritos.
Existe uma justiça poética em contar essa história hoje, pois a mulher que a história tentou apagar da própria obra é, na verdade, a mãe de um dos gêneros mais importantes da cultura. Cada distopia, cada pergunta angustiada sobre o futuro da tecnologia carrega um pouco da imaginação de uma adolescente de dezoito anos escrevendo o pesadelo que ninguém mais teve coragem de sonhar.




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