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Shonen, shojo, seinen e josei: o guia dos gêneros de mangá

  • Foto do escritor: cassianimotta
    cassianimotta
  • 5 de ago.
  • 5 min de leitura

Duas mulheres em estilo anime sorrindo, uma de casaco azul felpudo, diante de mural abstrato azul e branco.
Nana, de Ai Yazawa

Se você já entrou numa livraria ou numa loja de mangás, ou procurou algum anime nas categorias de algum streaming, e ficou perdido entre as palavras shonen, shojo, seinen e josei, saiba que você não está sozinho. Esses termos aparecem o tempo todo, mas quase nunca vêm com explicação. E existe uma confusão muito comum por trás deles, uma confusão que até fã antigo às vezes carrega sem perceber.


Neste post eu explico o que cada uma dessas categorias significa, de onde elas vieram e, principalmente, o mal-entendido central que muda completamente a forma como a gente entende um mangá.


Primeiro, o mais importante: isso não é gênero

Aqui está a chave de tudo. Shounen, shoujo, seinen e josei não são gêneros. São demografias.

A diferença parece pequena, mas é enorme. Gênero é sobre o tipo de história: ação, romance, terror, comédia, ficção científica. Demografia é sobre o público que a revista pretendia alcançar quando publicou aquela obra. É uma informação de mercado, não uma informação sobre o conteúdo.

Traduzindo de forma direta, shonen quer dizer "menino" e shojo quer dizer "menina". Seinen se refere a homens jovens adultos e josei a mulheres jovens adultas. Ou seja, essas quatro palavras dizem, na origem, para qual leitor a revista japonesa estava mirando, e não que tipo de história ela conta.

Isso significa que existe terror shounen, romance seinen, ação shoujo e comédia josei. As quatro categorias comportam qualquer gênero possível. Guarde essa ideia, porque a gente volta nela no fim.


De onde vem essa divisão

A separação entre conteúdo "para meninas" e "para meninos" é mais antiga do que a própria indústria moderna de mangá. Já no fim do século XIX circulavam no Japão revistas literárias voltadas ora para garotas, ora para garotos, muitas delas com histórias ilustradas. O mangá shojo, aliás, foi bastante influenciado por essas primeiras revistas literárias femininas.

Quando a indústria de mangá se firmou no modelo que conhecemos hoje, por volta dos anos 1950, as revistas já apareceram classificadas como shonen e shojo. Com o tempo, o mercado se ramificou e surgiram também o seinen e o josei, para acompanhar aquele público que cresceu e queria histórias mais maduras. A demografia, portanto, sempre foi uma ferramenta de organização das editoras japonesas, uma forma de saber qual revista vendia para qual leitor.

E é por isso que, no rigor técnico, a única maneira de saber a demografia certa de uma obra é descobrir em qual revista ela foi publicada. Não é o desenho, nem o tema, nem o protagonista que definem, mas sim, a revista.


As quatro categorias


Shonen

Grupo de piratas de One Piece posando sorridentes, com Luffy de chapéu de palha ao centro e céu azul ao fundo.
One Piece, de Eichiro Oda

É a categoria mais popular e mais conhecida no mundo todo. As revistas shounen miravam meninos e adolescentes, mais ou menos entre 12 e 18 anos, e é daí que vem boa parte dos maiores sucessos que você já ouviu falar. Naruto, One Piece, Dragon Ball, Demon Slayer, Jujutsu Kaisen e My Hero Academia são todos shonen.

As histórias costumam girar em torno de uma jornada de crescimento, com muita ação, amizade e superação. Mas cuidado com o estereótipo. Shounen não é sinônimo de porrada. Existe shounen de romance, de comédia, de esporte e de mistério. A etiqueta diz para quem a revista vendia, não que a história é obrigatoriamente cheia de lutas.


Shojo

Casal do anime Kimi ni Todoke
Kimi ni Todoke, de Karuho Shiina

As revistas shojo miravam meninas e adolescentes. A fama da categoria é a de focar em relações e emoções, e é verdade que muitos shojos clássicos são histórias de romance. Sailor Moon, Fruits Basket e Ouran High School Host Club são bons exemplos.

Mas de novo o estereótipo engana. Um dos traços mais bonitos do shojo é a liberdade da linguagem visual. É comum ver quadros que quebram a moldura, uso expressivo de flores e brilhos, e uma atenção enorme ao mundo interior dos personagens. Isso virou uma marca estética que influenciou o mangá inteiro, inclusive fora do shojo.


Seinen

Homem de mangá sentado num tronco, com espada, olhando o pôr do sol em paisagem árida em preto e branco.
Berserk, de Kentaro Miura

Aqui a gente sobe a faixa etária. As revistas seinen miram homens jovens adultos, e é nessa categoria que muita gente encontra suas obras favoritas quando quer algo mais complexo, mais sombrio ou mais disposto a terminar mal.

Berserk, Vinland Saga, Monster, Vagabond e o meu querido Claymore são seinen. Costumam ter mais violência, mais ambiguidade moral e temas mais adultos. É onde o mangá muitas vezes se aproxima do que a gente chamaria de literatura densa, com personagens cheios de camadas e finais que não fazem questão de te consolar.


Josei

Menina de óculos e tranças observa uma água-viva brilhante em tom azul, com expressão curiosa.
Princess Jellyfish, de Akiko Higashimura

O josei mira mulheres jovens adultas e é, de longe, a categoria menos publicada aqui no Brasil. Enquanto o shojo trabalha com o encantamento e o romance idealizado da adolescência, o josei traz um olhar mais maduro e realista sobre relacionamentos, trabalho, vida adulta e as frustrações que vêm junto.

Títulos como Nana, Paradise Kiss e Usagi Drop dão o tom, mas podem entrar também na categoria de shojo. Como o mercado brasileiro publica pouco josei, encontrar esses títulos exige um pouco mais de garimpo, o que é uma pena, porque é uma das demografias mais interessantes justamente por essa maturidade.


E o kodomo?

Vale uma menção rápida a uma quinta categoria que às vezes aparece: o kodomo, que significa literalmente "criança". São as obras voltadas ao público infantil, sem separação por gênero. Doraemon, Pokémon e Hamtaro entram aqui. Muita gente da nossa geração começou nos animes e mangás por títulos kodomo.

Dois hamsters kawaii sentados num fundo verde florido; um branco com laço azul e outro laranja segurando flores.
Hamtaro, de Ritsuko Kawai


Como demografia não é gênero, a etiqueta nunca deve ser usada para julgar a qualidade ou a profundidade de uma obra. E os melhores exemplos são justamente os que quebram a expectativa.

Fullmetal Alchemist é shonen e fala de genocídio, luto e as consequências da guerra. Nana é shojo e trata de vício, depressão e relações que machucam, o que poderia ser visto também como josei. Existem shonens muito mais pesados que certos seinens, e shojos muito mais adultos que muita obra dita "séria". A demografia diz onde a obra foi publicada e qual leitor a editora tinha em mente. Ela não diz o quanto aquela história pode ser profunda.

Inclusive, é bom saber que muitos fãs e até estudiosos japoneses já discutem se essas categorias ainda fazem sentido, já que hoje homens e mulheres, adultos e adolescentes leem de tudo, sem ligar para a etiqueta da revista. Na prática, a divisão vem se tornando cada vez mais uma referência de mercado do que uma regra de consumo.


Se você gosta de histórias densas, adultas e moralmente complexas, procurar na prateleira do seinen aumenta suas chances de encontrar algo do seu gosto. Se você quer algo mais rápido e cheio de energia, o shounen provavelmente vai te servir bem. Se busca romance com aquela sensibilidade visual característica, o shojo é um bom ponto de partida.

A melhor coisa que você pode fazer como leitor é usar esse guia para se orientar e, ao mesmo tempo, estar sempre disposta a ser surpreendido por uma obra que não se comporta como a etiqueta dela sugere, porque é quase sempre nesses mangás que quebram a própria categoria que mora o melhor da leitura.


Pessoalmente, eu sigo um princípio simples, que vale para os mangás como vale para os livros: não existe hierarquia entre o que é "para criança" e o que é "para adulto", entre o pop e o clássico. Existe história boa, e ela pode estar em qualquer prateleira.


 
 
 

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