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Supergirl - resenha do filme

Foto do escritor: cassianimotta
cassianimotta
15 de jul.
4 min de leitura

Eu saí do cinema chorando e eu vim logo escrever porque precisava falar sobre isso.

Supergirl chegou aos cinemas brasileiros em 25 de junho de 2026, dirigido por Craig Gillespie, com roteiro de Ana Nogueira e produção de James Gunn e Peter Safran. Milly Alcock vive Kara Zor-El. E o que esse filme fez comigo, que já tinha lido a HQ que o inspirou, com tudo que eu já escrevi e falei sobre essa personagem, foi algo que eu não esperava.


Supergirl de Milly Alcock

Kara Zor-El existe desde 1959. Foi criada por Otto Binder e Al Plastino para a Action Comics #252, a prima mais nova do Superman que chegou à Terra depois de sobreviver à destruição de Krypton em Argo City. A diferença crucial entre ela e Clark: ele não se lembra de Krypton, mas ela lembra de tudo.

Ela viu sua civilização morrer, viu pessoas tentando salvar o que não podia ser salvo. Cresceu sabendo exatamente o que foi perdido e depois foi enviada para um planeta estranho, para ser prima de um homem que já era herói, que já pertencia a algum lugar. Essa Kara nunca pertenceu da mesma forma.

Em 1985, na Crise nas Infinitas Terras, a DC matou Supergirl para garantir que Clark Kent fosse o único sobrevivente de Krypton. Foi uma das mortes mais sentimentais da história dos quadrinhos, ela morre salvando o próprio Superman, num sacrifício que o universo simplesmente apaga depois. A DC a tirou da continuidade e, por quase vinte anos, Kara Zor-El deixou de existir.

Quando ela voltou, em 2004, levou tempo para encontrar a versão de si mesma que fazia sentido para o século XXI. Esse processo durou muitos reboots, fases experimentais, e até uma série de televisão que a humanizou de um jeito que popularizou ainda mais a personagem entre o público.

E então veio a HQ que deu origem ao filme: Supergirl: Mulher do Amanhã, de Tom King e Bilquis Evely. Uma garota chamada Ruthye e uma jornada pelo espaço à procura de um assassino. Aqui temos a Kara mais honestamente quebrada que a DC já produziu.


A Kara do filme não é a heroína luminosa que sorri para a câmera: ela bebe, se isola e vai para planetas com sol vermelho para anular os próprios poderes. Ela quer experimentar existir como uma pessoa qualquer, sem o peso de ser invencível num mundo que ainda não é o dela. Essa é a personagem que o filme nos apresenta. 

Quandoa Ruthye, uma garota que perdeu o pai e quer vingança, cruza com Kara,ela tenta contratar a Supergirl como mercenária sem saber que está contratando alguém tão perdida quanto ela, o que nasce entre elas não é a relação de heroína e assistida. É uma parceria entre duas pessoas que estão tentando sobreviver à própria dor de formas completamente diferentes.

Duas pessoas, cada uma carregando um luto que não tem como ser resolvido rápido, encontram uma na outra o único tipo de companhia que faz sentido porque nenhuma das duas está fingindo que tudo está bem.


O ponto debatido do filme é a diferença em relação à HQ original. Na história em quadrinhos de Tom King, Ruthye consegue o que foi buscar: ela se vinga, mesmo que anos depois. O desfecho é longo, complexo, narrado com a voz dela olhando para o passado.

No filme, Craig Gillespie tomou uma decisão diferente. Kara impede Ruthye de matar o mercenário Krem. Não por ser ingênua, ela não tem um código moral perfeito e nem acredita que todo ser humano merece redenção. Mas Kara impede Ruthye porque ela mesma já esteve perto demais de fazer a mesma escolha e sabe, na pele, o que é deixar a raiva virar combustível e não conseguir mais parar.

Ver uma mulher imperfeita, que bebe escondida, que fugiu de responsabilidade, que não queria ser heroína de ninguém, tomando a decisão certa porque aprendeu com a própria dor, é algo que eu raramente vejo numa personagem feminina no cinema de super-herói. A heroína perfeita que nunca vacila é uma fantasia, mas a mulher que vacilou, que se perdeu, que ainda assim escolhe diferente quando chega a hora, é uma personagem real.


Milly Alcock quando anunciado que ela interpretaria Supergirl

Quando o elenco foi anunciado, Milly foi alvo de críticas que não tinham nada a ver com seu trabalho, eram ataques direcionados à sua aparência e até à mera existência do projeto, o tipo de coisa que revela muito sobre quem ataca.

O que Milly entregou na tela foi uma Kara que carrega silêncio da forma mais difícil, sem drama. Isso é atuação e merece ser reconhecido como tal.


A Ruthye do filme não tem o mesmo peso que a Ruthye da HQ. Na história de Tom King, ela é a narradora, é por meio da voz dela que entendemos tudo. No filme, ela escorrega para o papel de gatilho de trama, e isso é uma perda real.

O Krem, vilão central, é funcional, mas não acho que a escolha visual tenha sido das mais interessantes, já que um dos grandes choques na maldade de Krem no quadrinho é justamente ele parecer tão humano quanto nós. 

Quanto ao Lobo, uma adição interessante esteticamente, não me convenceu da sua necessidade para a trama, mas ainda assim, foi divertido vê-lo na tela.

Mas esses pontos não apagam os acertos do filme. A Kara, a escolha do final, a forma como o filme trata a dor sem romantizar… Isso funcionou muito bemcomigo.


Eu já escrevi e falei muito sobre Supergirl. Fiz um vídeo contando a história completa de Kara Zor-El antes do filme, de 1959 até hoje, porque achei que era impossível entender o que o filme estava fazendo sem entender a trajetória da personagem. E o que esse filme fez, no final, foi confirmar algo que eu acredito sobre a Kara desde que comecei a lê-la de verdade: ela é mais interessante com seus problemas. Sofrimento não é uma virtude, mas ver personagens infalíveis não te ensina nada sobre como se levantar.

A Supergirl que saiu do cinema comigo é a mais imperfeita que já vi na tela e por isso ela é a minha favorita.


Se quiser ver minha reação completa com spoilers, o vídeo está no canal Estante Pop.


 
 
 

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